Rua dos Anjos

Maria Roxo e Renata Ferraz, Portugal, 2022, 83’
Sinopse

Rua dos Anjos é um filme construído a partir do encontro e da criação fílmica partilhada entre duas mulheres. Nele, relatam e testemunham histórias pessoais enquanto trocam algumas técnicas dos seus respetivos ofícios: o trabalho sexual e o fílmico. Neste cenário, tornam-se ambas realizadoras e personagens.

Nota de Intenções

Rua dos Anjos é a minha primeira longa-metragem assim como a da Maria.

Em 2014, atriz há mais de vinte anos e realizadora há apenas três, atuei na longa metragem “Estive em Lisboa e lembrei de Você”, do realizador português José Barahona. A personagem que representei se chamava Sheila, trabalhava em casas de alterne e prostituição. Para o processo de construção desta personagem li o livro “Alugo o meu corpo”, de Paula Lee. Com uma narrativa autobiográfica, baseada na apresentação de técnicas do ofício do trabalho sexual, o livro descreve detalhadamente o início de sua carreira, a fase da inexperiência, a relação com os clientes. A leitura de Paula Lee fez-me refletir que as atrizes, na maioria das vezes, concebem romanticamente a representação de prostitutas e strippers, raramente conseguindo algum contacto com a realidade de tais ofícios e com as que dele vivem. Grandes personagens da literatura, do teatro e do cinema continuam a contribuir para a expressão romantizada da prostituta personagem.

Esta observação despertou em mim o desejo para a conceção do filme “Rua dos Anjos”. Passei a desejar fazer um filme que tivesse como temática inaugural a troca de algumas técnicas entre dois ofícios considerados pertencentes a domínios aparentemente distantes um do outro: o trabalho sexual e o fílmico.

O primeiro passo para realizá-lo deu-se na procura pelo paradeiro de Lee. Após um ano e meio de buscas ininterruptas e frustradas, fui obrigada a desistir de tê-la como a personagem do filme. Mas primeira batalha perdida, serviu como um novo começo. Enquanto ouvia de profissionais da área do cinema que o filme era um objeto descabido e fadado ao fracasso, ia reunindo forças, determinação e coerência para ir adiante. Precisava de encontrar uma personagem para o filme, mas não só. Diante da temática baseada na permuta dos saberes entre uma trabalhadora sexual e uma realizadora, tornou-se imprescindível que a premissa do filme partisse de uma criação partilhada entre quem filma e quem se deixa filmar. Assim, precisava não apenas encontrar uma trabalhadora sexual, mas que ela estivesse disposta a trocar experiências e a responsabilizar- se por partilhar a criação do filme, realizando-o ao meu lado. Tarefa difícil que durou dois anos para chegar ao fim e que encontrou em associações de apoio a trabalhadoras e trabalhadores sexuais e aos sem abrigo uma nova perspetiva de continuidade.

Maria Roxo, uma mulher ruiva, de cabelos longos e pintados, calças de ganga, meias e luvas de renda, com um diário pesado nas mãos, despertou a minha atenção. Maria contava que tinha certeza que um dia, sua vida daria um filme, e por isso, tinha sempre em mãos um documento, um diário-livro, contando parte de sua história. Ao conhecer Maria, as minhas forças para o projeto foram reavivadas. Maria, mulher forte e terna, inteligente e corajosa, disposta a empreender o desafio de se deixar ser documentada, ao mesmo tempo que me documentava e interferia no como o filme seria feito.

Maria faleceu no inicio do processo de montagem, acrescentando uma nova camada de sentido ao filme. Por isso, as palavras de Maria não podem ser lidas nesta nota de intenções. No entanto, as reminiscências das longas conversas com ela ao longo de um ano sobre os possíveis caminhos narrativos do filme acompanharam-me até aqui.

“Rua dos Anjos” guarda, assim, a promessa de abrir um espaço para reflexão e fruição de um tipo de se fazer cinema, baseado numa criação fílmica partilhada entre quem observa e quem se deixa observar.

Renata Ferraz

Festivais e Prémios

Ann Arbor Film Festival, Competição de Longas-metragens, Prémio Eileen Maitland Award
Sheffield DocFest, Youth Jury Nominee
Queer Porto, Prémio do Público
Queer Porto, Menção especial na Competição oficial
IndieLisboa, Competição nacional
Berlin Porn Film Festival, Competição internacional de documentários
Dias do Cinema Portugês em Berlim
DocPoint, seleção oficial

Fotos
Trailer
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Dossier de Imprensa
Cartaz

Entrevista a Renata Ferraz

Crítica

Este não é um filme que se possa ver casualmente, por diversão. É um filme que exige o significado que lhe é merecido e que pede ao espectador que questione aspetos menos falados sobre feminilidade e sobre realização. Ao apresentar estas temáticas juntas, o filme e as suas criadoras criam algo bonito e honesto com o potencial de mudar a perspetiva dos espectadores. Independentemente disso, é um filme marcará nas suas mentes perguntas que levarão consigo para o resto da vida.
Erin Evans, The Michigan Daily

Uma das mais surpreendentes obras da Competição Nacional.O filme documenta o encontro entre a prostituta aposentada Maria Roxo e a realizadora e atriz brasileira residente em Portugal Renata Ferraz. A primeira ensina as artes do ofício à segunda, que pretende angariar clientes para um projeto sui generis, ao mesmo tempo que conta a fascinante história da sua vida e partilham as inquietações mais íntimas. Ambas assinam a autoria. Um autêntico óvni cinematográfico.
Manuel Halpern, Visão

Sagaz, ousado, estimulante.
Jorge Leitão Ramos, Expresso

A intenção era esta: encetar um regime colaborativo, de “coexistência”, entre realizadora e (não)atriz, entre o trabalho de realização e o devidamente trabalhado ou investigado assunto (subject). Mas é como Maria diz, perto do fim: “Acho que estou a dirigir tudo porque a história é minha”. É isso que Renata – inteiríssimo mérito seu – acabará por perceber: o filme é de Maria, a experiência de realização participada, iniciada seguindo (ou extremando) alguns dos protocolos do cinema documental, de Robert Flaherty a Jean Rouch & Edgar Morin, redundou no retrato simples de uma personagem complexa, luminosa e brilhantemente altiva; acerca da mulher por detrás do nome-tributo “Dadinha” e da maneira como a imaginação pode ir, efetivamente, ao encontro da realidade, acabando superada por esta última. De “Dadinha” a Maria, um sol nasce e este filme presta-lhe a sentida homenagem – o menos clínica ou académica possível.
Luís Mendonça, Cinemateca Portuguesa

Na sua máxima maturidade, mostra que é impossível compreender toda a galáxia de uma pessoa, mesmo quando tentamos entrar na sua pele em jeito de ator. Isso não é um triste limite, mas um testamento à maravilha da pessoa, à glória de Maria Roxo.
Cláudio Alves, Magazine HD

Clipping

Reino Unido
The Prisma
Rua dos Anjos: Secrecy and self-revelation
Maria Roxo: from sex-work to film-directing


EUA

The Michigan Daily
Ann Arbor Film Festival 2022 ‘Rising Sun Blues’ explores womanhood and film


Portugal

Visão
Uma das mais surpreendentes obras da Competição Nacional (do IndieLisboa 2022).

2 dedos de conversa
Rua dos Anjos, ou: coisas do divino

Público
Em “Rua dos Anjos”, duas mulheres partilham experiências e saberes

Lusa
‘Rua dos Anjos’ leva ao cinema encontro entre duas mulheres e suas vidas

Expresso
Nesta categoria da competição oficial, também recebeu menção especial o filme “Rua dos Anjos” (Portugal, 2022), da realizadora Renata Ferraz e Maria Roxo, que durante vinte anos viveu de trabalho sexual, tendo recebido ainda o Prémio do Público.

CineBlog IfILNOVA
Rua dos Anjos: O cinema como lugar de encontro

Expresso
Sagaz, ousado, estimulante.

Magazine HD
IndieLisboa ’22 | Rua dos Anjos, em análise

Bom dia.eu
Rua dos Anjos: documentário que aborda o tabu do trabalho sexual

Jornal de Notícias
“Rua dos Anjos”: o corpo a quem o trabalha

Sapo
“Rua dos Anjos”: um retrato íntimo, honesto e “artesanal” de duas mulheres entre a prostituição e o cinema

Ípsilon
Trocar de vida. Uma actriz e uma prostituta encontram-se em Rua dos Anjos

Alemanha
Taz.blogs
Wer behält das letzte Wort?
Pornfilmfestival Berlin 2022 als Dauerliveblog: Im Stream


Espanha

Desist.film
Sheffield Doc Fest 2022: Rising Un Blues De Renata Ferraz Y Maria Roxo

Realizadoras

MARIA ROXO
Maria Roxo nasceu em Lourenço Marques (hoje Maputo), em Moçambique. Em pequena, gostava de brincar com os pés na terra, com os filhos dos trabalhadores do seu pai. Na juventude, entrou na faculdade de medicina. Por conta de rebeldias políticas impulsionadas pelas aulas do professor Zeca Afonso (musico de protesto) foi encaminhada, como castigo, para a frente de batalha na guerra colonial. Foi lá que descobriu a morfina, uma maneira para fugir da violência da realidade em que vivia. Depois da Revolução dos Cravos, chegou a Lisboa. Para manter a adição herdada pela guerra, foi trabalhadora sexual durante mais de vinte anos. Os anos de ballet clássico fizeram-na uma exímia stripper. Nas casas de alterne, acompanhou e acolheu a historia dos homens que passaram por ali. Como prostituta de rua, lembrou-se dos horrores da guerra. Nunca se sentiu pertencente a Portugal. Sonhava voltar um dia a Moçambique. Maria sempre soube que a sua vida daria um filme. Começou a filmá-lo em 2016, quando conheceu Renata Ferraz.

Filmografia
Rua dos Anjos, 83’, Portugal/Brasil, realizado com Renata Ferraz

 

RENATA FERRAZ
Renata Ferraz nasceu em São Paulo, no Brasil. No meio do caos da megalópole, licenciou-se em Artes Cénicas pela UNESPe foi atriz durante vinte anos. Participou em grupos de pesquisa teatrais e também trabalhou com encenadores reconhecidos no Brasil e fora dele. As violências sofridas na cidade e na profissão, misturadas com a paixão pela imagem em movimento, fizeram-na fugir para Lisboa. Começou com a criação em vídeo arte e posteriormente, passou para curtas de ficção. Considera os processos de construção de um filme, um espaço de experimentação e investigação. Na capital do país, fez também um mestrado em Multimédia e Audiovisuais pela FBAUL e um doutoramento em Artes Performativas e da Imagem em Movimento pela Universidade de Lisboa. Do teatro, herdou o prazer pela criação coletiva e decidiu fazer um filme a partir da realização partilhada com alguém que não pertencesse ao mundo do cinema ou a outras áreas artísticas. Soube que o seu projeto sairia do plano das ideias quando conheceu Maria Roxo.

Filmografia
Rua dos Anjos, 83’, Portugal/Brasil, realizado com Maria Roxo
Corpos Palimpsésticos-Mnemónicos, 9’, 2020, Portugal, realizado com Flávio Almeida
Corpos Palimpsésticos, 20’, 2020, Portugal, realizado com Flávio Almeida
Ádito, 14’, 2017, Brasil, realizado com Rubiane Maia
Evo, 15’, 2015, Brasil, realizado com Rubiane Maia
Another Place, 4’, 2013, Reino Unido, Portugal, a partir da obra homónima de Antony Gormley
Corpo sem órgãos, 9’, 2012, Portugal, a partir da performance In de Valentina Parraviccini
Regras, 4’, 2013, Brasil/Portugal
Herói Trágico, 3’, 2014, Portugal
EU – european union, 4’, 2012, Portugal, a partir da persona She-Bull de Dani d’Émilia.
Permuta, 2’, 2009, Brasil, com a colaboração de Marcos Gorgatti

Ficha Técnica

um filme construído por

Maria Roxo realização, atuação, argumento, guarda-roupa, câmara adicional, apoio à montagem, assistente de produção

Renata Ferraz realização, atuação, argumento, adereços, câmara adicional, montagem, produção, pesquisa

Samara Azevedo
fotografia, câmara, assistente de realização, som direto, assistente de produção, apoio ao argumento

Filipe Ruffato
fotografia, câmara, assistente de realização, som direto, assistente de produção

Susana de Sousa Dias
consultora de pesquisa, consultora de argumento, consultora de montagem

Flávio Almeida
cor, foley, efeitos visuais, montagem de som, câmara adicional, apoio à fotografia

André Neto
montagem de som, restauro de som

Tiago Matos mistura de som

Mário Espada montagem, trailer, efeitos visuais

Fernanda Gurgel
consultoria de cor, apoio a montagem

Brick Fields
música original (Take my time, 2015)

José Barahona
excertos de filme (Estive em Lisboa e lembrei de você, 2015)

Kintop
produção

Refinaria
co-produção