O que acontece a um ser humano quando as suas janelas de perceção são emparedadas de forma irreversível? Quando descobrem a iminente cegueira que o destino lhes guarda, Agim e Gëzim, dois irmãos gémeos, idênticos, inseparáveis e Surdos, constroem uma nova linguagem feita de silêncios opacos.
Estamos em Tirana, nos dias de hoje, onde os irmãos, na casa dos trinta anos, vivem juntos debaixo do mesmo teto. Ana, a namorada de Gëzim, uma mulher jovem e enérgica, visita-os com bastante frequência. Uma noite, Agim está a conduzir de regresso a casa com Gëzim, quando fica com a visão turva e quase sofre um acidente fatal. Alguns dias mais tarde, no oftalmologista, descobrem que, em virtude de uma doença genética rara, ficarão cegos de forma progressiva e irreversível.
Nesta história baseada em factos verídicos, a beleza crua e, por vezes, cruel que há na tristeza revela-se em espaços temporais poéticos. Mergulhando lentamente numa escuridão insuportável, sem serem capazes de ver o mundo ou de se verem um ao outro, e tendo apenas Ana por companhia, diante de um café e de um novo par de sapatos, os dois irmãos veem-se confrontados com uma firme decisão.
Nesta alegoria cinemática dos próprios limites do cinema, há uma viagem a travar pela melancolia e por um desconforto que parece terminar apenas quando se tornar em conforto ou, quem sabe, em algo novo por descobrir.
Um café e um par de sapatos novos é um drama existencial íntimo que decorre principalmente num apartamento, no contexto urbano de Tirana. A exploração da evolução das relações humanas e a sua profunda complexidade numa situação absolutamente existencial sempre me fascinaram.
Esta história baseia-se em dois irmãos gémeos, idênticos e Surdos, e no seu intenso amor fraternal, desenrolando-se debaixo do mesmo teto. Ao descobrirem que, em virtude de uma doença genética, ficarão cegos de forma lenta e progressiva, começam a compreender que nunca mais se verão um ao outro e perderão a comunicação com o mundo. Senti-me fascinado com a ideia de realizar um filme que tratasse de questões fundamentais como: o que acontece a um ser humano quando mergulha completamente na escuridão, sem ser capaz de comunicar com os outros e com o mundo? O que acontece a um ser humano quando todas as suas janelas de perceção são emparedadas de forma irreversível?
Um dos mais importantes desafios para mim, enquanto realizador, foi o de manter um subtil equilíbrio entre o drama individual e a insuportável separação de dois irmãos gémeos inseparáveis. A realização deste filme representa, para mim, um desafio estético: que elementos de estilo devia usar e em que medida, com vista a narrar esta história de uma forma minimalista e realista, mas também dinâmica e não abusiva.
Pessoalmente, creio que uma subtil economia de verdades não contadas entre os dois irmãos e Ana, permite que a história se desenrole ao seu próprio ritmo, deixando margem a espaços temporais poéticos e reflexivos no filme ao manter o espetador emocionalmente envolvido ao longo do desenvolvimento do drama. A forma como os personagens lidam com o espaço é uma das componentes visuais mais importantes.
Um café e um par de sapatos novos tem lugar sobretudo em locais interiores (pequenas salas, casas de banho, apartamentos, instalações hospitalares). A câmara pode, deste modo, aproximar-se mais dos personagens para penetrar gradualmente no seu estado psicológico e na evolução da sua relação. Uma componente igualmente importante neste filme é o som. Os personagens principais comunicam em linguagem gestual albanesa, o que exige uma dinâmica e energia corporificadas quando os dois personagens comunicam ou interagem com o meio que os rodeia. O facto de os dois personagens não possuírem perceção auditiva, leva-os a produzir sons e ruídos mais fortes do que o habitual, o que transmite ao espetador uma sensação estranha de tensão ao longo de todo o filme. A harmonia dos sons e dos silêncios representa o que, pessoalmente, considero ser a “música” do filme. Em termos de tom e estilo, procurei equilibrar o que vemos e o que não vemos, libertando ao mesmo tempo a minha linguagem cinematográfica, tanto quanto possível, daquilo a que chamo de convenções da linguagem do cinema.
Os movimentos quotidianos repetitivos dos personagens, bem como os diálogos corporais mínimos e intensos numa linguagem gestual tátil, condensam fortes emoções cinemáticas, ao passo que os banhos de cores frias ajudam a revelar a soturnidade poética e reflexiva da história. Um café e um par de sapatos novos aborda com empatia e dignidade os desafios existenciais e éticos que influenciam fortemente as opções de vida das pessoas com deficiência visual e auditiva. Esta história única e existencial é um drama meticuloso, sensível, penetrante e estimulante sobre a fraternidade, o amor e a comunicação, que se transforma numa alegoria cinematográfica dos próprios limites do cinema. Sem imagem! Sem som! Sem fala!
Bergamo Film Meeting, 2023
Prémio de Melhor Realização
Festival de Cinema Europeu Cinedays, 2023
Prémio Golden Sun para Melhor Filme no programa SEE Program
Prémio da Associação de Críticos da Macedónia
Festival Internacional de Cinema Pristina, 2023
Prémio de Melhor Ator (Edgar Morais e Rafael Morais)
Festival Internacional de Cinema de Tessalónica, 2023
Prémio do Público
Um achado tão raro: uma tragédia da vida real explorada de forma vívida que, ao mesmo tempo que nos parte o coração, nos eleva.
Variety
A segunda longa-metragem de Gentian Koçi é soberba.
Screen Daily
Um exercício de subtileza, cuidadosamente medido, com um cenário perfeito. Cineuropa
O melhor desempenho conjunto de Edgar e Rafael Morais.
Variety
É um filme, ao mesmo tempo, cru e real, mas pintado com delicadeza artística e poética, tal como num quadro tangível da vida.
Taxi Drivers
5 filmes que estreiam em Portugal nos cinemas esta semana
4g News
Um Café e um Par de Sapatos Novos | Filme protagonizado por Rafael e Edgar Morais já nos cinemas
Flagra
‘Um Café e Um Par de Sapatos Novos’ – Rafael e Edgar Morais, irmãos inseparáveis, corações ao alto
Diário de Notícias
Um Café e Um Par de Sapatos Novos: os meninos sem lágrima
Público
“Um Café e Um Par de Sapatos Novos”, Gentian Koçi
NIT
“Um Café e Um Par de Sapatos Novos” estreia nas salas nacionais a 31 de Outubro
Cinema 7arte
Um café e um par de sapatos novos
Cultura Acessível
“Um Café e Um Par de Sapatos Novos”: Filme com os irmãos Edgar e Rafael Morais chega aos cinemas
Cinevisão
Um Café e Um Par de Sapatos Novos (2022) Estreia a 31 de Outubro
Cardápio
Quatro filmes para ver esta semana
Observador
As estreias da semana Nos cinemas a partir de 31 de outubro
Agenda Cultural de Lisboa
O cinema com Inês N. Lourenço
A Grande Ilusão
Rafael Morais: “Não há nada mais bonito do que ver um ator ser vulnerável”
Caras
Edgar e Rafael Morais protagonistas de “Um Café e um Par de Sapatos Novos”
Jornal de Notícias
Cinco filmes para ver nesta semana nos cinemas
Visão
Cinema: “Um Café e um Par de Sapatos Novos” é um drama dilacerante e despojado
Expresso
Os filmes da semana: estreias nas salas de cinema (30 de outubro 2024)
Filmspot
Tempos Livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar
Gerador
Realização e argumento · Gentian Koçi
Produção · Blerina Hankollari, Gentian Koçi
Coprodução · Irini Vougioukalou, Konstantina Stavrianou, Maria João Mayer, Liridon Cahani
Elenco · Edgar Morais, Rafael Morais, Drita Kabashi
Direção de Arte · Denisa Oruci
Direção de Fotografia · Ilias Adamis
Edição · Myrto Karra
Figurinos · Emir Turkeshi Gramo
uma produção Maria & Mayer e ArtLab Film Production
com o apoio do Instituto do Cinema e do Audiovisual, I. P. (ICA I.P.)
Gentian Koçi é realizador, argumentista e produtor em Tirana, na Albânia. Começou o seu percurso como realizador de curtas-metragens, tendo The Mirror, Antenna e Jinx in a Jiffy sido exibidas em diversos festivais internacionais de cinema e conquistado um total de sete prémios. Em 2017, Gentian Koçi terminou a sua primeira longa-metragem como argumentista, realizador e produtor, Daybreak, que teve a sua estreia mundial na competição oficial do Festival Internacional de Cinema de Sarajevo, em agosto de 2017, onde a atriz principal, Ornela Kapetani, foi também galardoada com o Prémio “Coração de Sarajevo” para Melhor Atriz.Um café e um par de sapatos novos, a sua segunda longa-metragem, passou por vários festivais internacionais, onde venceu cerca de seis prémios, e foi também a representante oficial da Albânia na cerimónia de atribuição dos Óscares de 2023.
FILMOGRAFIA
The Mirror, 2007
Antenna, 2008
Jinx in a Jiffy, 2009
Not a Carwash, 2012
Àjáso, une philoperformance, 2014
Daybreak, 2017
Um café e um par de sapatos novos, 2022
Edgar Morais iniciou a sua carreira como ator de teatro na adaptação portuguesa de A Tragédia de Júlio César de William Shakespeare, encenada por Luís Miguel Cintra, no Teatro Municipal de São Luiz, em Lisboa. Fez a sua estreia como ator de cinema em Daqui P’ra Frente de Catarina Ruivo (vencedor do Prémio do Público no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro) e desde então tem trabalhado com realizadores como Larry Clark, Victoria Mahoney, Miguel Nunes, Robert Kirbyson, Q’orianka Kilcher, Erick Avari, Amy Rider e Julian Wayser. Estreou-se como realizador em Heatstroke, seguindo-se We Won’t Forget, curta-metragem que realizou com Lucas Elliot Eberl com quem também assina You Above All. Como ator, os seus trabalhos mais recentes, para além de Um café e sapatos novos, podem ser vistos em Lovely, Dark and Deep de Teresa Sutherland, The (In)Famous Mr. Howell de Rodrigo Areias, Restos do Vento de Tiago Guedes (seleção oficial do Festival de Cannes de 2022) e Chalk, realizado por Victoria Mahoney.
Rafael Morais formou-se na Escola Profissional de Teatro de Cascais em Portugal, tendo dado continuidade ao seu percurso através de bolsa de estudo do Actors Guild na Academia Stella Adler, em Los Angeles. Desde então, tem trabalhado com vários cineastas de renome mundial, como Nick Hamm, Luis Prieto, João Canijo, Carlos Conceição, Gentian Koçi, Matthew Mishory ou Tiago Guedes. Teve o seu primeiro papel de destaque na controversa longa-metragem de Marco Martins Como desenhar um círculo perfeito que foi a obra oficial de Portugal a concurso no 82.º Prémio da Academia de Cinema dos Óscares e que foi vencedora do Prémio de Melhor Elenco no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro. As suas interpretações mais reconhecidas podem ser vistas em filmes como Blood of my blood, Doomed love, Joshua tree, 1951, Aamadeo de Vicente Alves do O, Mal viver de João Canijo, Madrugada suja de Sebastião Salgado, no drama distópico Homeland de Bruno Gascon e nas séries de sucesso da Netflix Glóris, Linhas brancas e Fishtail