Visita de Estudo

Excursion
Una Gunjak, Ficção, França, Bósnia e Herzegovina, Noruega, Croácia, Sérvia, 2023, 93 min.


Una Gunjak, Ficção, França, Bósnia e Herzegovina, Noruega, Croácia, Sérvia, 2023, 93 min.

Sinopse

Em Sarajevo, uma adolescente que procura por validação afirma que fez sexo, pela primeira vez, durante um jogo de «verdade ou desafio» entre alunos do ensino básico.
Presa na sua própria mentira, inventa uma gravidez e acaba por se tornar no centro
de uma controvérsia que foge do controlo.

Festivais

Festival Internacional de Cinema de Cleveland (EUA), 2024
Festival Internacional de Cinema de Miami (EUA), 2024
Festival Internacional de Cinema de Vilnius (Lituânia), 2024
Festival Internacional de Cinema Mykolaichuk OPEN Audience (Ucrânia), 2024
Festival Internacional de Cinema de Locarno (Suiça), 2023 – Estreia
Festival Internacional de Cinema de Sarajevo (Bósnia e Herzegovina), 2023
Festival Internacional de Cinema de Cottbus (Alemanha), 2023
Festival Mediterrâneo de Cinema de Montepellier (França), 2023
Festival Internacional de Cinema de São Paulo (Brasil), 2023
Festival Internacional de Cinema de Tessalónica (Grécia), 2023

Prémios

Festival Internacional de Cinema de Locarno (Suiça), 2023 – Menção Honrosa

Nota de Intenções

O que significa ‘tornar-se uma mulher’ na atual era da pós-verdade? E que implicações tem na sociedade de hoje, há 30 anos estagnada na esperança de um ”’amanhã melhor”. Vivemos situados entre o antigo e o novo, entre o passado socialista e tradicional, de um lado, e a sociedade moderna, do outro.

Quando, há alguns anos, a Bósnia e Herzegovina foi abalada por um considerável escândalo, onde supostamente um grupo de sete meninas de 13 anos da mesma turma engravidou durante uma visita de estudo, as reações foram de indignação e incredulidade. Para além destas meninas terem sido julgadas, acusadas e envergonhadas pelos meios de comunicação nacionais e pelas plataformas digitais, a notícia sobre as precoces meninas bósnias chegou também à imprensa internacional que, enfatizando os pseudo-pregadores morais locais, transformou a história numa verdadeira histeria coletiva. A verdade sobre o que realmente aconteceu já não importava, e isso interessou-me. Mas, o que chamou ainda mais a atenção foi a verdade pessoal destas jovens. Como estão elas a lidar com a sua sexualidade em desenvolvimento e o que verdadeiramente motiva as suas ações e desejos na sociedade de hoje? Especialmente numa sociedade tão claramente falida como a sociedade bósnia.

Inspirado remotamente neste acontecimento real, “Excursion” é um filme que procura abordar esta questão, subvertendo a narrativa ocorrida e mostrando o ponto de vista da personagem principal para falar sobre a sociedade, as suas normas, os seus valores e a violência perpétua que opera sobre os seus indivíduos.

A história individual de Iman serve, assim, como um veículo para refletir sobre o coletivo que a rodeia – a sociedade em que vive. Iman é uma jovem como qualquer outra da sua idade. Começa por experimentar o desejo e o desejo de ser desejada. Pela primeira vez, vê meninas, meninos, homens e mulheres. À medida que se vai tornando consciente da sociedade ao seu redor, o modo como age e as regras e morais que segue, Iman tenta descobrir o seu lugar. No entanto, ela é diferente de qualquer outra menina. É audaciosa, assertiva, engenhosa, absolutamente incapaz de ser uma vítima, mas mesmo tempo, é delirante, ingénua e excessivamente sensível. Quando se apaixona por Damir, acredita que, através dessa mistura de encantamento, hormonas em ebulição e amor jovem, encontrará finalmente o seu lugar na sociedade e canalizará a sua própria feminilidade. Através do desejo de ser desejada, obterá esse sentimento de realização e de validação.

Todos os adolescentes estão naturalmente confusos por causa da idade pois vivem ao mesmo tempo como crianças e adultos, mas aqueles que crescem na Bósnia e Herzegovina, são vítimas de uma outra divisão. Por um lado, temos o pior resultado da transição capitalista nos Balcãs, onde a sexualidade emergente é explorada e violada. Por outro lado, temos o novo dogma conservador disfarçado de religião, que, na ausência de outros valores éticos e morais no país, prosperou e agora está pronto para punir e humilhar esta mesma juventude.

O tema da dualidade e da divisão retorna ao lar ao afirmar o óbvio: a sexualidade é uma questão privada, mas torna-se inevitavelmente numa questão pública. Como mulher na casa dos trinta anos que está agora a desatar os nós da sua própria formação sexual, como uma mulher bósnia que observa a sua sociedade e especialmente a sua juventude de hoje, e, por último, simplesmente como feminista – sinto um impulso e uma obrigação de fazer este filme.

Abordagem Dramática e Visual
A abordagem ao tema impõe o um registo dramático do filme, sem dúvida enraizado em elementos de realismo. Assistimos a um pedaço da vida, onde nenhum aspecto, nenhuma ação, por maior ou menor que seja, acontecerá sem consequências. Este realismo, no entanto, não fugirá do absurdo, quando necessário, para descobrir a hipocrisia da sociedade de uma maneira direta e objetiva.

Iman e os demais personagens adolescentes são interpretados por atores não profissionais que foram incentivados a se comportarem de uma forma natural e a intervir na linguagem e no diálogo, contribuindo para o som autêntico do filme, e aproximando-o o mais possível da realidade. O elenco foi complementado por atores profissionais que interpretaram os papéis dos adultos, proporcionaram equilíbrio e estabilidade ao elenco. Encontrar a Iman certa foi o elemento mais desafiador do processo e, igualmente, o mais importante.

Ao contrário dos meus filmes anteriores, “Excursion” evoluiu em termos do estilo visual. A câmara está ao ombro como antes, mas mais estável, dando aos atores uma espécie de quadro para atuar, em vez de seguir necessariamente todos os seus movimentos. Isto resultou numaa composição particular que reflete os temas e emoções do filme: a tensão, dualidade, a assimetria e as camadas do mundo em que os personagens vivem.

A fotografia privilegiou a iluminação natural sempre que possível. Aproveitei ao máximo a iluminação disponível e prática do local, filmando os rostos, corpos e a cidade de uma maneira muito crua e sem polimento.

As filmagens foram programadas para o início da primavera, com o objetivo de contrastar o tom cinzento e a névoa de Sarajevo, em todo o seu esplendor monocromático, com os lampejos de luz e cor vindos dos figurinos dos personagens, dos locais adornados e da cidade.

A estética desenvolvida foi coroada por uma paisagem sonora densa e suja, típica dos bairros urbanos em betão onde os personagens vivem, e pela música hip-hop local desta nova geração, que, com as suas batidas e letras, falam sobre e para a juventude bósnia de hoje.

Una Gunjak

2023: Excursion (longa-metragem)
2017: Salamat From Germany (curta-metragem)

Ficha Técnica

Realização e argumento: Una Gunjak
Elenco: Asja Zara Lagumdžija, Nađa Spaho, Maja Izetbegović, Mediha Musliović, Izudin Bajrović
Produtores: Amra Bakšić Čamo, Adis Đapo
Co-produtores: Siniša Juričić, Jelena Mitrovic, François Morisset, Gary Cranner
Fotografia: Matthias Pilz
Montagem: Clémence Diard
Som: Igor Čamo
Música: Draško Adžić
Direção de Arte: Emina Kujundžić
Figurinos: Katarina Pilić
Maquilhagem: Lamija Hadžihasanović-Homarac
Direção de Casting: Timka Grin

Fotos
Trailer