Desde a década de 1970, o fotógrafo inglês Martin Parr tem refletido — ora com ternura, ora com crítica, sempre com ironia — sobre o nosso tempo, obrigando-nos a encarar de frente a forma como a sociedade de consumo moldou as nossas vidas.
Este filme convida-nos a descobrir o inconformista por detrás de algumas das imagens mais icónicas do último século, numa viagem íntima e exclusiva pela Inglaterra ao lado de Parr. Sem concessões, o seu olhar, os seus enquadramentos e o uso da cor revolucionaram a fotografia contemporânea.
Durante a inauguração, em 2019, da minha exposição “The House in Arles”, fiquei verdadeiramente surpreendido quando Martin Parr — um dos meus grandes heróis da fotografia — se aproximou de mim para elogiar o meu trabalho.
Esse encontro deu origem a uma colaboração com a Magnum, facilitada pelo próprio Martin, que nos concedeu acesso ao seu arquivo digital. A integração das suas imagens com The Anonymous Project resultou, em 2021, na criação do livro e projecto Déjà View, apresentado nas galerias da Magnum, em Paris, antes de seguir para Londres. Desde então, desenvolveu-se entre nós uma relação genuína. Quem diz que nunca se devem conhecer os nossos heróis?Agora, ao celebrar o seu 70.º aniversário, Martin abriu-nos generosamente as portas do seu quotidiano para a realização de um documentário íntimo. Este retrato sem filtros procura revelar a essência dos seus inúmeros projectos e inquietações.
Há artistas que mudam a forma como vemos o mundo. Para mim, Martin é um deles. Trouxe uma nova maneira de olhar e a sua visão e estilo tornaram-se uma linguagem própria na evolução da fotografia. É um mistério, e quis perceber o que o impele, de forma constante, a criar imagens tão marcantes.
Martin é, em muitos aspectos, um enigma. Trabalha completamente à margem das convenções do mundo da fotografia; é um rebelde permanente, um outsider. É dono de si próprio e a sua influência é inegável. Nunca conheci ninguém como Martin. O seu interesse pela condição humana é insaciável.
Há uma crítica principal que é frequentemente dirigida a Martin Parr, o fotógrafo de 72 anos cujas imagens em grande plano, de cores saturadas, se tornaram sinónimo da iconografia britânica: a de que olha para os seus retratados da classe trabalhadora de cima para baixo, com um olhar cruel e satírico.
Este documentário, assumidamente afetivo, responde a essa crítica em parte através da forma como posiciona Parr. Aqui está ele, a caminhar ao longo do cais de New Brighton ou a comer um 99 Flake, tal como os veraneantes que fotografou para a sua coleção de afirmação de 1986, The Last Resort. Mas a câmara de Lee Shulman não estuda o rosto de Parr com a mesma ferocidade impiedosa que Parr aplicou aos seus próprios sujeitos; pelo contrário, paira atrás do seu ombro, olhando para aquilo que ele próprio está a olhar.
Algumas das tentativas mais diretas de defender a reputação de Parr revelam-se pouco convincentes. É óbvio que funcionários de galerias pagos vão dizer que o chefe sabe pôr as pessoas à vontade. Ainda assim, algo nas expressões contidas desses entrevistados, enquanto a câmara lhes é enfiada pela cara adentro, parece sugerir o contrário. Pelo caminho, a inclusão do admirador célebre David Walliams apenas suscita a inquietante inferência de que a obra de Parr poderá ser o equivalente, no mundo da arte, de Little Britain.
E, no entanto, a oportunidade de ver aqui muitas das imagens verdadeiramente marcantes de Parr — sobretudo o seu trabalho inicial a preto e branco, menos conhecido e tocantemente humanista — dissipa qualquer dúvida quanto ao legado do fotógrafo. Ele propôs-se “criar um arquivo sobre o tempo que vivi na Grã-Bretanha” e foi exatamente isso que fez — modos bruscos e os famosos faux pas à parte.
The Guardian, Ellen E. Jones, 23.02.2025
As suas imagens saturadas congelam a trivialidade da sociedade de consumo e do lazer. Na sua lente, o mundo é uma comédia humana ácida. Um retrato pop que segue os códigos estéticos do seu modelo. Estâncias balneares, comida fluorescente embrulhada em celofane, turistas em grupos agarrados aos seus smartphones… As suas imagens com cores saturadas, congelando na luz crua do flash a trivialidade da sociedade de consumo e do lazer, deram a volta ao mundo. Visto através da lente de Martin Parr, o mundo é uma comédia humana ácida. Observador obsessivo do infraordinário, o fotógrafo britânico criou um estilo que, por vezes, suscita controvérsia e incompreensão. Num exercício de admiração que segue os códigos estéticos do seu modelo, Lee Shulman, ele próprio apaixonado por fotografias coloridas — é o criador do The Anonymous Project, uma coleção original de diapositivos vintage amadores —, retrata o artista, agora septuagenário, com quem mantém uma relação de cumplicidade.
Télérama, Virginie Félix, 14.02.2025.
I am Martin Parr convida a uma imersão apaixonante, lúdica e divertida em cinquenta anos de carreira de um génio da fotografia, cuja visão rebelde e cáustica revolucionou a sua arte.
Bulles de Culture, Jean-Christophe Nurbel, 30.01.2026
Com I Am Martin Parr, Lee Shulman dá-nos a sua primeira longa-metragem, tão lúdica quanto subtil, fiel ao espírito do fotógrafo que ilumina… humor e ternura entrelaçam-se para captar a própria essência da arte de Martin Parr… um documentário cativante e comovente, absolutamente imperdível…”
Cult.news, Angélina Zarader, 12.02.2025
Lee Shulman, artista e realizador nascido em Londres, é licenciado pela University of Westminster. Com mais de duas décadas de experiência na indústria audiovisual, realizou mais de 100 campanhas publicitárias a nível internacional, tendo sido distinguido com vários prémios.
Em 2017, lançou The Anonymous Project, que rapidamente se tornou uma das mais relevantes coleções de diapositivos fotográficos amadores. O seu livro Mid-Century Memories foi distinguido como Livro de Fotografia do Ano pelo The Times. Em colaboração com Martin Parr, publicou mais recentemente Déjà View, livro amplamente aclamado e apresentado em exposição em 2022.
As exposições imersivas de Shulman — entre as quais The House, apresentada nos Rencontres d’Arles em 2019 — recorrem a instalações de grande escala para reativar memórias esquecidas. Representado pela Polka Gallery, Lee Shulman continua a afirmar-se como uma voz singular na construção de narrativas visuais contemporâneas.
REALIZAÇÃO
Lee Shulman
PRODUÇÃO
Emmanuelle Lepers
PRODUTORES EXECUTIVOS
Oli Harbottle
Anna Godas
MONTAGEM
Raphaëlle Martin-Holger
DIREÇÃO DE FOTOGRAFIA
Maxime Kathari
MÚSICA ORIGINAL
Erik Wedin
SOM
Laurent Schwartz
CORREÇÃO DE COR
Pierre-Élie Akoka
EDIÇÃO E MISTURA DE SOM
Jocelyn Robert
Matthieu Perrot
DESIGN GRÁFICO
Arthur Lecoeur
Michel Welfringer
ARQUIVISTA
Stella Moss
COM A PARTICIPAÇÃO DE
Camille Juza
Benjamin Chevalier
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO
Nathalie Ducrin