A propósito da estreia comercial de “Além do Horizonte – A Travessia”, de Fernando Vendrell, a Zero em Comportamento apresenta com a FNAC o ciclo O Cinema de Fernando Vendrell, que percorre as lojas FNAC ao longo do mês de outubro.
O ciclo reúne cinco filmes que atravessam quase três décadas da obra do realizador e produtor, desde a sua primeira longa-metragem, rodada em Cabo Verde, até ao retrato de José Cardoso Pires em “Sombras Brancas”. Entre África e Portugal, entre a literatura e a memória histórica, os seus protagonistas partilham uma mesma inquietação, movidos pelo desejo de mudança e de liberdade, o mesmo impulso que leva Gago Coutinho e Sacadura Cabral a arriscar a primeira travessia aérea do Atlântico Sul em “Além do Horizonte”.
Compõem o programa:
“Sombras Brancas” (2022)
“Pele” (2006)
“O Gotejar da Luz” (2002)
“Fintar o Destino” (1998)
“Aparição” (2014)
O ciclo estará em exibição nas lojas FNAC ao longo do mês, com sessões distribuídas por várias cidades do país.
Para saber as lojas e o calendário de exibições consulte o site da FNAC.
NOTAS DE UM REALIZADOR
“Fintar o Destino” (1998)
A minha carreira na realização começou com um filme improvável. Formei-me na Escola de Cinema do Conservatório Nacional e, após sete anos como assistente de realização de Manoel de Oliveira e João César Monteiro, decidi mudar de rumo, fiz um Curso de Gestão das Artes e criei a produtora David & Golias.
“Fintar o Destino” fugia ao cânone do cinema português do início dos anos 1990: era rodado em África (Cabo Verde), falado em crioulo e interpretado por atores não profissionais. Tornou-se a minha primeira longa-metragem como realizador e produtor. Mané, um antigo guarda-redes do Mindelense angustiado por nunca ter jogado em Portugal, procura resgatar ou confrontar-se com o seu sonho.
Apesar de fortes limitações financeiras, a intervenção do produtor António da Cunha Telles foi vital para a conclusão do filme, que obteve um notável sucesso internacional, tornando-se a obra portuguesa com maior circulação em festivais em 1998.
“O Gotejar da Luz” (2002)
Fui surpreendido por um convite de Ana Costa, produtora da Cinemate, para realizar um argumento sobre a infância de Leite de Vasconcelos em Moçambique — um projeto raro e fascinante, centrado numa das figuras maiores da cultura portuguesa. Rui Pedro, jovem filho de colonos, vive numa zona isolada do mato e assiste à tensão crescente da população, obrigada a cultivar apenas algodão; confrontado com esse drama, opta por um rumo de vida novo.
Inicialmente recusei o convite, apesar de reconhecer a força e a originalidade da narrativa, mas acabei por aceitar perante a insistência da produtora. Rodado durante as grandes cheias de 2001 em Moçambique, foi uma verdadeira aventura: mais de 30 técnicos adoeceram com malária e as adversidades do terreno afetaram os trabalhos. Ainda assim, tornou-se um filme feliz, que voltou a levar-me a festivais internacionais e me consagrou plenamente como realizador.
“Pele” (2006)
De regresso à David & Golias, “Pele” nasceu de uma pesquisa sobre Henrique Galvão e fecha uma trilogia dedicada a África. A partir do seu romance homónimo, procurei denunciar as contradições e o racismo da literatura colonial do Estado Novo.
A narrativa acompanha o percurso catártico de Olga, criança adotada e sem raízes, que cresce estigmatizada na alta burguesia fascista da Lisboa dos anos 70 — o espelho antagónico de Rui Pedro. Construído num tom de melodrama exacerbado, o filme é propositadamente artificioso e incómodo, sendo ainda hoje provocador pela sequência final de dança em black face, que expõe o mito colonial multirracial do governo de Marcelo Caetano.
“Aparição” (2014)
Após um hiato de sete anos, o regresso à realização aconteceu por acaso, através de uma troca de projetos na véspera de um concurso — desta vez para adaptar uma obra de Vergílio Ferreira. Alberto, jovem professor de liceu em Évora, luta para que o isolamento de uma sociedade fechada não limite a sua ambição de se tornar romancista.
Rodado em Évora, com atores e personagens ainda vivos na memória da cidade, o filme ganhou uma dimensão quase metafísica. Considero “Aparição” uma obra quase perfeita, um momento de libertação e de aprofundamento do meu trabalho enquanto realizador.
Olhando para trás, percebo que os protagonistas de todos os meus filmes partilham a mesma inquietação: movidos pelo desejo de mudança e de liberdade, que procuro oferecer a quem vê os meus filmes.
A viagem recomeça agora. Bom filme, boa projeção!
Fernando Vendrell