Jörg Wagner, Stefan Prehn, Ficção, Alemanha, 2001, 9'
Klaus acabou de passar no exame de condução para empilhadores, mas o seu primeiro dia de trabalho acaba por se revelar um verdadeiro desafio. Acontecem acidentes cruéis mas educativos. Apenas alguns sobrevivem ao massacre. Uma homenagem aos filmes educativos sobre segurança industrial.
Pelle é um rapaz tímido de 12 anos que acidentalmente é picado por uma formiga e desenvolve super-‐poderes inimagináveis. Com a ajuda do seu amigo Wilhelm, nerd da BD, Pelle cria uma identidade secreta: O Super-‐Formiga, e torna-‐se num combatente do crime local. Quando um super-‐vilão, o Pulga, entra em cena, o Super-‐Formiga tem de estar à altura do desafio!
O projecto começou com uma ideia dos Screenwriters Oslo, um colectivo que integra alguns dos mais promissores jovens escritores noruegueses. Eles usaram partidos políticos como inspiração para criar histórias sobre a Noruega da actualidade. Todos os partidos políticos têm um manifesto que expressa valores, atitudes e mentalidades que podem facilmente transformar-se em acções e conflitos.
João Pinto Nogueira, Portugal, documentário, 2014, 80 min.
No início do ano de 1985, o escritor Nuno Bragança entrega ao amigo Carlos Antunes um questionário de 13 perguntas, em 13 folhas de papel quadriculado, oferecendo o espaço retro-verso de cada folha para as respostas. Essas 13 perguntas constituem um inquérito ao percurso pessoal e político de Carlos Antunes, com especial interesse pelo seu envolvimento na criação das Brigadas Revolucionárias e na luta armada contra a ditadura. Nuno Bragança e Carlos Antunes haviam sido companheiros nessa luta e o terceiro romance do escritor, “Square Tolstoi”, de 1981, relata justamente o seu envolvimento com o início das Brigadas e as primeiras acções bombistas. A morte prematura do escritor, nesse mesmo ano de 1985, deixou o questionário sem respostas e alguma incerteza quanto ao seu propósito. Passados mais de 20 anos, OUTRA FORMA DE LUTA pede a Carlos Antunes que responda a essas 13 perguntas para, a partir delas, reconstituir o percurso de um homem e as conquistas, ilusões e amarguras das Brigadas Revolucionárias e da luta armada em Portugal, nos anos que rodeiam o 25 de Abril de 1974.
Num vale remoto da serra da Peneda há um homem que… mudou. Partiu. É preciso ir buscá-lo para lhe dar o funeral. O agente funerário Olegário, acompanhado por Raul e Carlos, montam a urna numa pick-up (não há outra forma de chegar ao destino) e seguem serra acima. Vai ser um serviço para uma longa jornada.
Lisboa 1972. Olga, uma estudante finalista do curso de Biologia, descobre aos 23 anos que não sabe quem é. Filha de pai branco e mãe mulata que nunca conheceu, é educada pela madrasta, Adelaide, num ambiente burguês e convencional. Quando o pai, Alexandre, regressa a Lisboa, após uma ausência de 20 anos em Angola, terra onde fez fortuna, ela confronta-se com o segredo da sua origem, com o vazio hipócrita do seu passado. Olga rompe com a família para encontrar o seu espaço de liberdade, um caminho interior em busca da sua verdadeira identidade. Como actriz de teatro descobre que o combate das emoções e das memórias se trava à flor da pele.
Festival Internacional de Filmes de Mulheres, Harare, Zimbabué, 2009;
Mostra de Cinema em Madrid, Saragoça e Valência, Espanha, 2009;
Semana do Cinema Português em Ramallah, Palestina, 2009;
Olhares sobre África – Semana de Cinema Português em Argel, Argélia, 2009;
Festival de Cinema da UE em Bangkok, Tailândia, 2009;
60º Edinburgh International Film Festival, Reino Unido, 2009;
22º Festróia International Film Festival, 2009;
IndieLisboa 3º Festival Internacional de Cinema Independente, 2009.
Festival de Cinema da UE – Durban, África do Sul, 2008;
Festival Internacional Pobre de Gibara – Havana, Cuba, 2008;
15º African Diaspora Film Festival – Nova Iorque, EUA, 2007
7º Rome Pan African Film Festival – Itália, 2007
Documentário sobre o trabalho de Helena Almeida, artista plástica que, desde finais dos anos 60, tem desenvolvido uma obra na qual explora os limites dos diferentes meios que utiliza, sejam eles a pintura, o desenho, a fotografia ou o vídeo. o filme centra-se nas várias fases e elementos envolvidos no elaborado processo criativo através do qual Helena Almeida constrói as suas obras, colocando em cena o próprio corpo.
Chris Shepherd, David Shrigley, Animação, Reino Unido, 2005, 8'
Este filme é sobre MIM e sobre o que EU quero. Não é sobre TI e sobre o que TU queres. Pensas que tudo o que eu faço é sobre ti, mas não é. É sempre sobre mim…
Shelly Silver, Documentário, Alemanha, 2020, 71 min.
Uma viagem pela histórica colecção do Museu de Belas Artes de Leipzig, guiada por um grupo de raparigas com idades entre os 7 e os 19 anos.
Passando de obra em obra, de século em século, elas partilham connosco a sua perspectiva do que vêem. Ao nascermos, entramos num mundo previamente construído – não escolhemos a nossa própria história, contexto ou cultura. Cada um de nós encara, com um novo olhar, uma cultura que já foi moldada e estruturada com base nos desejos e decisões de outros. Esta cultura é, frequentemente, opaca e escondida sob a superfície do “como é” e do “como foi”. Os museus são instituições concebidas para preservar – são um repositório de visões muitíssimo selectivas da história e da civilização. As obras de arte apresentadas sob a capa da educação e do conhecimento foram, ao logo da história, concebidas, colecionadas, escolhidas e contextualizadas por homens. Não faltam representações de mulheres, mães, esposas, prostitutas, modelos e musas – sejam contemporâneas, clássicas ou religiosas, a larguíssima maioria dessas figuras foi feita sob a perspectiva de homens. Tendo em conta este desequilíbrio, como é que estas obras deverão ser observadas hoje em dia?
Rua dos Anjos é um filme construído a partir do encontro e da criação fílmica partilhada entre duas mulheres. Nele, relatam e testemunham histórias pessoais enquanto trocam algumas técnicas dos seus respetivos ofícios: o trabalho sexual e o fílmico. Neste cenário, tornam-se ambas realizadoras e personagens.
Nota de Intenções
Rua dos Anjos é a minha primeira longa-metragem assim como a da Maria.
Em 2014, atriz há mais de vinte anos e realizadora há apenas três, atuei na longa metragem “Estive em Lisboa e lembrei de Você”, do realizador português José Barahona. A personagem que representei se chamava Sheila, trabalhava em casas de alterne e prostituição. Para o processo de construção desta personagem li o livro “Alugo o meu corpo”, de Paula Lee. Com uma narrativa autobiográfica, baseada na apresentação de técnicas do ofício do trabalho sexual, o livro descreve detalhadamente o início de sua carreira, a fase da inexperiência, a relação com os clientes. A leitura de Paula Lee fez-me refletir que as atrizes, na maioria das vezes, concebem romanticamente a representação de prostitutas e strippers, raramente conseguindo algum contacto com a realidade de tais ofícios e com as que dele vivem. Grandes personagens da literatura, do teatro e do cinema continuam a contribuir para a expressão romantizada da prostituta personagem.
Esta observação despertou em mim o desejo para a conceção do filme “Rua dos Anjos”. Passei a desejar fazer um filme que tivesse como temática inaugural a troca de algumas técnicas entre dois ofícios considerados pertencentes a domínios aparentemente distantes um do outro: o trabalho sexual e o fílmico.
O primeiro passo para realizá-lo deu-se na procura pelo paradeiro de Lee. Após um ano e meio de buscas ininterruptas e frustradas, fui obrigada a desistir de tê-la como a personagem do filme. Mas primeira batalha perdida, serviu como um novo começo. Enquanto ouvia de profissionais da área do cinema que o filme era um objeto descabido e fadado ao fracasso, ia reunindo forças, determinação e coerência para ir adiante. Precisava de encontrar uma personagem para o filme, mas não só. Diante da temática baseada na permuta dos saberes entre uma trabalhadora sexual e uma realizadora, tornou-se imprescindível que a premissa do filme partisse de uma criação partilhada entre quem filma e quem se deixa filmar. Assim, precisava não apenas encontrar uma trabalhadora sexual, mas que ela estivesse disposta a trocar experiências e a responsabilizar- se por partilhar a criação do filme, realizando-o ao meu lado. Tarefa difícil que durou dois anos para chegar ao fim e que encontrou em associações de apoio a trabalhadoras e trabalhadores sexuais e aos sem abrigo uma nova perspetiva de continuidade.
Maria Roxo, uma mulher ruiva, de cabelos longos e pintados, calças de ganga, meias e luvas de renda, com um diário pesado nas mãos, despertou a minha atenção. Maria contava que tinha certeza que um dia, sua vida daria um filme, e por isso, tinha sempre em mãos um documento, um diário-livro, contando parte de sua história. Ao conhecer Maria, as minhas forças para o projeto foram reavivadas. Maria, mulher forte e terna, inteligente e corajosa, disposta a empreender o desafio de se deixar ser documentada, ao mesmo tempo que me documentava e interferia no como o filme seria feito.
Maria faleceu no inicio do processo de montagem, acrescentando uma nova camada de sentido ao filme. Por isso, as palavras de Maria não podem ser lidas nesta nota de intenções. No entanto, as reminiscências das longas conversas com ela ao longo de um ano sobre os possíveis caminhos narrativos do filme acompanharam-me até aqui.
“Rua dos Anjos” guarda, assim, a promessa de abrir um espaço para reflexão e fruição de um tipo de se fazer cinema, baseado numa criação fílmica partilhada entre quem observa e quem se deixa observar.
Renata Ferraz
Festivais e Prémios
Ann Arbor Film Festival, Competição de Longas-metragens, Prémio Eileen Maitland Award
Sheffield DocFest, Youth Jury Nominee
Queer Porto, Prémio do Público
Queer Porto, Menção especial na Competição oficial
IndieLisboa, Competição nacional
Berlin Porn Film Festival, Competição internacional de documentários
Dias do Cinema Portugês em Berlim
DocPoint, seleção oficial
Este não é um filme que se possa ver casualmente, por diversão. É um filme que exige o significado que lhe é merecido e que pede ao espectador que questione aspetos menos falados sobre feminilidade e sobre realização. Ao apresentar estas temáticas juntas, o filme e as suas criadoras criam algo bonito e honesto com o potencial de mudar a perspetiva dos espectadores. Independentemente disso, é um filme marcará nas suas mentes perguntas que levarão consigo para o resto da vida. Erin Evans, The Michigan Daily
Uma das mais surpreendentes obras da Competição Nacional.O filme documenta o encontro entre a prostituta aposentada Maria Roxo e a realizadora e atriz brasileira residente em Portugal Renata Ferraz. A primeira ensina as artes do ofício à segunda, que pretende angariar clientes para um projeto sui generis, ao mesmo tempo que conta a fascinante história da sua vida e partilham as inquietações mais íntimas. Ambas assinam a autoria. Um autêntico óvni cinematográfico. Manuel Halpern, Visão
A intenção era esta: encetar um regime colaborativo, de “coexistência”, entre realizadora e (não)atriz, entre o trabalho de realização e o devidamente trabalhado ou investigado assunto (subject). Mas é como Maria diz, perto do fim: “Acho que estou a dirigir tudo porque a história é minha”. É isso que Renata – inteiríssimo mérito seu – acabará por perceber: o filme é de Maria, a experiência de realização participada, iniciada seguindo (ou extremando) alguns dos protocolos do cinema documental, de Robert Flaherty a Jean Rouch & Edgar Morin, redundou no retrato simples de uma personagem complexa, luminosa e brilhantemente altiva; acerca da mulher por detrás do nome-tributo “Dadinha” e da maneira como a imaginação pode ir, efetivamente, ao encontro da realidade, acabando superada por esta última. De “Dadinha” a Maria, um sol nasce e este filme presta-lhe a sentida homenagem – o menos clínica ou académica possível. Luís Mendonça, Cinemateca Portuguesa
Na sua máxima maturidade, mostra que é impossível compreender toda a galáxia de uma pessoa, mesmo quando tentamos entrar na sua pele em jeito de ator. Isso não é um triste limite, mas um testamento à maravilha da pessoa, à glória de Maria Roxo. Cláudio Alves, Magazine HD
MARIA ROXO
Maria Roxo nasceu em Lourenço Marques (hoje Maputo), em Moçambique. Em pequena, gostava de brincar com os pés na terra, com os filhos dos trabalhadores do seu pai. Na juventude, entrou na faculdade de medicina. Por conta de rebeldias políticas impulsionadas pelas aulas do professor Zeca Afonso (musico de protesto) foi encaminhada, como castigo, para a frente de batalha na guerra colonial. Foi lá que descobriu a morfina, uma maneira para fugir da violência da realidade em que vivia. Depois da Revolução dos Cravos, chegou a Lisboa. Para manter a adição herdada pela guerra, foi trabalhadora sexual durante mais de vinte anos. Os anos de ballet clássico fizeram-na uma exímia stripper. Nas casas de alterne, acompanhou e acolheu a historia dos homens que passaram por ali. Como prostituta de rua, lembrou-se dos horrores da guerra. Nunca se sentiu pertencente a Portugal. Sonhava voltar um dia a Moçambique. Maria sempre soube que a sua vida daria um filme. Começou a filmá-lo em 2016, quando conheceu Renata Ferraz.
Filmografia Rua dos Anjos, 83’, Portugal/Brasil, realizado com Renata Ferraz
RENATA FERRAZ
Renata Ferraz nasceu em São Paulo, no Brasil. No meio do caos da megalópole, licenciou-se em Artes Cénicas pela UNESPe foi atriz durante vinte anos. Participou em grupos de pesquisa teatrais e também trabalhou com encenadores reconhecidos no Brasil e fora dele. As violências sofridas na cidade e na profissão, misturadas com a paixão pela imagem em movimento, fizeram-na fugir para Lisboa. Começou com a criação em vídeo arte e posteriormente, passou para curtas de ficção. Considera os processos de construção de um filme, um espaço de experimentação e investigação. Na capital do país, fez também um mestrado em Multimédia e Audiovisuais pela FBAUL e um doutoramento em Artes Performativas e da Imagem em Movimento pela Universidade de Lisboa. Do teatro, herdou o prazer pela criação coletiva e decidiu fazer um filme a partir da realização partilhada com alguém que não pertencesse ao mundo do cinema ou a outras áreas artísticas. Soube que o seu projeto sairia do plano das ideias quando conheceu Maria Roxo.
Filmografia Rua dos Anjos, 83’, Portugal/Brasil, realizado com Maria Roxo Corpos Palimpsésticos-Mnemónicos, 9’, 2020, Portugal, realizado com Flávio Almeida Corpos Palimpsésticos, 20’, 2020, Portugal, realizado com Flávio Almeida Ádito, 14’, 2017, Brasil, realizado com Rubiane Maia Evo, 15’, 2015, Brasil, realizado com Rubiane Maia Another Place, 4’, 2013, Reino Unido, Portugal, a partir da obra homónima de Antony Gormley Corpo sem órgãos, 9’, 2012, Portugal, a partir da performance In de Valentina Parraviccini Regras, 4’, 2013, Brasil/Portugal
Herói Trágico, 3’, 2014, Portugal EU – european union, 4’, 2012, Portugal, a partir da persona She-Bull de Dani d’Émilia. Permuta, 2’, 2009, Brasil, com a colaboração de Marcos Gorgatti
Ficha Técnica
um filme construído por
Maria Roxo realização, atuação, argumento, guarda-roupa, câmara adicional, apoio à montagem, assistente de produção
Renata Ferraz realização, atuação, argumento, adereços, câmara adicional, montagem, produção, pesquisa
Samara Azevedo fotografia, câmara, assistente de realização, som direto, assistente de produção, apoio ao argumento
Filipe Ruffato fotografia, câmara, assistente de realização, som direto, assistente de produção
Susana de Sousa Dias consultora de pesquisa, consultora de argumento, consultora de montagem
Flávio Almeida cor, foley, efeitos visuais, montagem de som, câmara adicional, apoio à fotografia
André Neto montagem de som, restauro de som
Tiago Matos mistura de som
Mário Espada montagem, trailer, efeitos visuais
Fernanda Gurgel consultoria de cor, apoio a montagem
Brick Fields música original (Take my time, 2015)
José Barahona excertos de filme (Estive em Lisboa e lembrei de você, 2015)
Kintop produção
Refinaria co-produção
Kim Longinotto, Documentário, Reino Unido, Índia, 2013, 89'
Quando Salma, uma jovem muçulmana do sul da Índia, tinha 13 anos, foi trancada pela sua família durante 25 anos, que a proibiu de estudar e a forçou a casar. Durante esse tempo, as palavras foram a salvação de Salma. Ela começou secretamente a compor poemas em pedaços de papel e, por meio de um sistema complexo, foi capaz de os tirar de casa, e levá-los para as mãos de um editor. Contra todas as expectativas, Salma tornou-se a mais famosa poeta Tamil: o primeiro passo para a descoberta de sua própria liberdade e o desafiar das tradições e códigos de conduta na sua aldeia.
Nicolas Philibert, França, documentário, 2002, 104 min.
Numa escola primária na região de Auvergne em França, Georges Lopez é professor de uma turma de 13 crianças, com idades compreendidas entre os 4 e os 10 anos.
Lopez, um educador veterano à beira da reforma, é um modelo de sensibilidade e compreensão a lidar com crianças. Nunca levantando a sua voz e falando directamente com eles, o seu afecto é tão notório como o respeito e a confiança que as crianças têm por ele.
Aos 71 anos, José Cardoso Pires sofre um acidente vascular cerebral, perdendo a capacidade de se relacionar com o mundo. Apesar de ser escritor, não reconhece as palavras e não consegue sequer articulá-las com nexo. Rodeado de vultos translúcidos com quem não é capaz de se comunicar, contempla, apático, a consternação de familiares e amigos.
A seu lado, permanece a sua mulher, Edite. Acompanhando-o na sua vida concreta, estendendo a mão como que para o escoltar através do labirinto da sua própria mente. Lugares, situações e personagens fundem-se numa mistura entre a vida real, a ficção e a sua memória, num mundo luminoso e quase sem sombras. No hemisfério direito do seu cérebro, como que vindo do “lobo da imaginação”, surgem personagens surreais e fantásticas que enviam sinais misteriosos para que Cardoso Pires se volte a encontrar.
Do outro lado, no hemisfério esquerdo, encontra-se o “lobo da realidade” onde, esperançados que ele se reconheça novamente, os familiares, médicos, pessoal hospitalar e doentes, procuram com perseverança trazê-lo para a realidade. Todos parecem desafiar o famoso autor a escrever um novo livro que narre esta sua aventura contando uma “última história”, a mais definitiva de toda a sua carreira, a da sua involuntária viagem pelo território das sombras brancas.
Este livro existe e intitula-se “De Profundis, Valsa Lenta” de José Cardoso Pires. Ao regressar ao mundo dos cérebros vivos, após dobrar o meridiano da morte, o escritor afirmou: “Isto de alguém se recomeçar assim depois de nulo, é algo que deslumbra e ultrapassa”.
Nota do realizador
Li, no momento da sua primeira edição, De Profundis – Valsa Lenta de José Cardoso Pires. É uma obra única do ponto de vista literário e humano e reparto com o escritor esta obsessão da importância da memória como evidência do humano.
A afetação das capacidades cognitivas do autor através de um AVC, localizado no lobo da linguagem e da comunicação, ficou reportada em obra literária com laivos biográficos. Ao lermos este livro, somos cúmplices de um “ato médico” que surpreende a ciência e questiona filosoficamente a existência humana, confrontando-a com o surreal.
Em 2012, perante a fragilização da memória dos meus pais, esta adaptação cinematográfica começou a tomar forma e tornou-se uma obsessão pessoal. Pareceu-me ser este um tema extraordinário para um filme.
A obra de José Cardoso Pires foi pesquisada e elencada para a escrita do argumento cinematográfico, a sua família respondeu às perguntas que tanto eu como o Rui Cardoso Martins (coargumentista) lhes fizemos, trazendo-nos outras questões e contextos para o projeto.
Filmado no pico da segunda vaga pandémica, entre Novembro e Dezembro de 2020, e montado em confinamento, este filme foi também uma experiência limite em que eu, o elenco e a equipa técnica, nos confrontámos com a fragilidade humana. Estávamos a filmar num hospital, num momento em que os serviços de saúde já não comportavam o número de doentes afetados e em que milhares de pessoas não sobreviviam. Fomos forçados a isolarmo-nos para sobreviver.
O filme surgiu também deste contexto, através desta evidência implacável. É hoje enorme a gratidão que sinto por todos os que em mim confiaram, que arriscaram e que contribuíram para o surgimento inesperado desta obra.
Agora projetado em sala de cinema, parece haver pouco a acrescentar. A sala cinema é para mim um espaço criativo solitário, onde o espectador contemporiza a sua memória com impressões e vivências inexplicáveis. Também o meu cinema plasma sensações e emoções por mim vividas e remete dúvidas e questões que procuram resposta.
Sombras Brancas assemelha-se a uma alegoria biográfica de José Cardoso Pires, mas é também um filme que reporta a experiência de ser e de viver hoje, um gesto que ambiciona a alegria.
José Cardoso Pires nasceu em São João do Peso, Vila de Rei,em 2 de outubro de 1925. Estudou Matemáticas Superiores na Faculdade de Ciências, não tendo chegado a concluir o curso. Em 1945, alistou-se na Marinha Mercante como praticante de piloto, o que também viria a abandonar abruptamente. Em alternativa, viria a optar pela carreira de jornalista, tendo sido diretor das Edições Artísticas Fólio e lançado a Revista Almanaque, cuja redação integrou figuras como Luís Sttau Monteiro, Alexandre O’Neil, Vasco Pulido Valente e André Cutileiro. Foi, ainda, cronista do Diário de Lisboa, da Gazeta Musical e de Todas as Artes e da Afinidades.
Considerado um dos maiores escritores portugueses do século XX, a sua carreira literária foi marcada pela inquietação e pela deambulação. Entre 1949 e 1997, publicou dezoito livros sem se identificar com qualquer grupo ou género literário, apesar de ser considerado sobretudo como um romancista. O Delfim, de 1968, geralmente é considerado como a sua obra-prima, na qual o narrador assume uma condição de forasteiro, aparentemente descomprometido com uma realidade anacrónica.
A 8 de Julho de 1954, casou com Maria Edite Pereira da qual teve duas filhas: Ana Cardoso Pires e Rita Cardoso Pires. Morreu em 1998, tendo sido sepultado no Talhão dos Artistas do Cemitério dos Prazeres, em Lisboa.
Fernando Vendrell · realizador
Fernando Vendrell (Lisboa, 1962) licenciou-se na Escola Superior de Teatro e Cinema em 1985. Iniciou o seu percurso profissional como assistente de realização e colaborou com António da Cunha Telles como diretor de produção, produtor executivo e produtor delegado em inúmeras produções nacionais e estrangeiras. Em 1992, fundou, com Luís Alvarães, a produtora David & Golias, da qual é sócio gerente e produtor.
Em 2015, Fernando Vendrell foi distinguido com o Prémio de Carreira Fantasporto. Os seus filmes têm participado regularmente em inúmeros festivais nacionais e internacionais onde têm sido objeto de diversas distinções como o Prémio de Melhor Realizador e o Prémio do Público para Melhor Filme no 1.º Festival de Angra do Heroísmo, o Prémio de Melhor Realizador no 7.º Festival de Cinema Ourense e a Menção Honrosa do Prémio CICAE no Festival de Cinema de Berlim com o filme O Gotejar da Luz.
Com Fintar o Destino, ganhou o Prémio Especial do Júri no Fantasporto, o Prémio para Melhor Filme no Festival de Cinema de Nápoles e o Prémio Alma para Melhor Argumento. A série O Dia do Regicídio foi, também, distinguida pelo Festival de Televisão
de Monte-Carlo como melhor Série Dramática. Para além de curtas-metragens e documentários, o seu percurso como realizador inclui ainda as longas-metragens Pele, O Gotejar da Luz e Aparição, baseada na obra homónima de Vergílio Ferreira, e com as séries televisivas Bocage e 3 Mulheres, esta última transmitida pela RTP,
em 2019.
Rui Cardoso Martins · argumentista
(Portalegre, 1967) Licenciou- se em Ciências da Comunicação pela FCSH. Escreveu os romances E Se Eu Gostasse Muito de Morrer (2006), Deixem Passar o Homem Invisível (Grande Prémio do Romance da Associação Portuguesa de Escritores APE, 2009), Se Fosse Fácil Era Para os Outros (2012) e O Osso da Borboleta. (2014).
Repórter na fundação do jornal Público, foi também cronista das manhãs de quarta-feira, na Antena 1, na rúbrica O Fio da Meada. Ganhou dois prémios Gazeta por Levante-se o Réu, e desde 2016, publica uma crónica com o mesmo nome, no Jornal de Notícias, todos os domingos.
No cinema, é co-autor do argumento original da longa-metragem A Herdade, de Tiago Guedes, filme candidato ao Leão de Ouro para Melhor Argumento e ao Prémio Sophia para Melhor Filme e Melhor Argumento. É, ainda, responsável pelo argumento de Zona J e, do último filme de Fernando Lopes, Em Câmara Lenta.
Em televisão, é co-autor das séries televisivas Sul, criada por Edgar Medina e Guilherme Mendonça e dirigida por Ivo M. Ferreira
(Prémio Sophia para Melhor Ficção Televisiva e Prémio APE), República, realizada por Jorge Paixão da Costa, Causa Própria (baseada numa história original e em crónicas de Levante-se o Réu) e Linha de Água, de João Canijo. Co-fundador de Produções Fictícias, foi também co-criador e autor dos históricos programas de humor Contra-Informação, Herman Enciclopédia, Conversa da Treta, Casal da Treta.
No teatro, escreveu a comédia Última Hora para o Teatro Nacional Dona Maria II, em cena em Outubro e Novembro de 2020, e a peça António e Maria no Teatro Meridional, encenada por Miguel Seabra e baseada em António Lobo Antunes.
Ficha Técnica
Fernando Vendrell, Portugal, Ficção, 114 min, 2022
José Cardoso Pires Rui Morrison Edite Natália Luiza
“Zé” Cardoso Pires (jovem) Rafael Gomes Edite (jovem) Ana Lopes Ana Cardoso Pires Raquel Rocha Vieira Rita Cardoso Pires Iris Cayatte Martinho Luís Mascarenhas Médica / Senhora Capeline Soraia Chaves Prof. João / Polícia 1500 Rui Luís Brás Alexandra Alpha Maria João Bastos Artur Semedo Rogério Samora Lena / Sophia Margarida Moreira Mariana Inês Sá Frias Capitão Gonçalo Waddington Major Santos António Fonseca
Realização Fernando Vendrell Argumento Rui Cardoso Martins e Fernando Vendrell Música Eduardo Raon Imagem Hugo Azevedo Som Tiago Raposinho Montagem João Braz Misturas Tiago Matos Direção de Arte Bruno Duarte Figurinos Patrícia Doria Maquilhagem Márcia Lourenço Cabelos Miguel Teixeira Assistente de Realização Ângela Sequeira Diretor de Produção Bruno Martins Produção Executiva Ana Figueira Produção Fernando Vendrell e Luís Alvarães Distribuição Zero em Comportamento
Matty Jorissen, Wijnand Driessen, Animação, Bélgica, 2018, 14 min.
Deixado pelo seu pai num colégio interno isolado, o pequeno Will rapidamente se torna alvo de bullying. Apenas a amizade com um pequeno pássaro lhe traz algum alívio. À medida que o bullying se intensifica, as hipóteses de fuga tornam-se mais escassas.
Ultrapassando a confusão emocional de esperar que a sua vida adulta comece enquanto se diverte com os seus amigos –uma autêntica, radical e sensível realidade do que é ser adolescente e uma perspectiva da adolescência ucraniana.
A tímida Masha, estudante do 12.o ano, sente-se como uma outsider senão estiver com os colegas Yana e Senia, que partilham a sua visão não-conformista da vida. Enquanto tenta ultrapassar o último ano do secundário, Masha apaixona-se, de uma forma que a obriga sair da sua zona de conforto.
Primeira obra de uma realizadora ucraniana, esta é uma história pessoal sobre a paciência que a auto-descoberta exige.
Raquel Marques, documentário, Espanha, 2021, 60 min.
Um novo lugar no mundo é revelado enquanto Bea é confrontada com a perda e com o que imagina que virá. Na casa que se prepara para acolher a mudança, os medos habitam. Uma solidão inesperada também parece fazer parte de seu desejo, o de ser mãe solteira e lésbica. Raquel filma-a ligada a uma época em que as duas compartilhavam a mesma ideia de comunidade. À medida que o corpo de Bea muda, a câmara oscila entre o afeto e a distância. São tentativas de (re)conhecer-se nestes tempos de mudança, e talvez também uma necessidade de se questionar sobre a família, o amor, a amizade e todos aqueles desejos que ultrapassam os limites da intimidade.
À beira do Tejo, numa antiga comunidade piscatória, um homem vive entre a tranquilidade solitária do rio e as relações que o ligam à terra. Terra Franca retrata a vida deste pescador, atravessando as quatro estações que renovam os ciclos da natureza e acompanham as contingências da vida de Albertino Lobo.
O homem na barriga da mulher foi o primeiro de muitos. Nunca lhe causou problemas e era melhor que o homem que ocupava o tronco da mulher perpendicularmente.
Amaya Sumpsi, Carlos Lima, Catarina Alves Costa, Joana Lucas, Raquel Carvalheira, Teresa Costa, Documentário, Portugal, 2019, 66 min.
Filme colectivo, revela o ambiente do mês do Ramadão em vários momentos, desde o seu começo, cheio de entusiasmo e frenesim ao cansaço dos últimos dias. Num contexto onde o jejum não é uma prática comum nem maioritária, este documentário segue as personagens pelas suas ruas, pelas suas paisagens e pelos seus mundos. Resulta de um processo criativo partilhado e coloca em pano de fundo uma Lisboa próxima e reconhecível, num movimento de aproximação humana do cinema.
Um filme produzido no laboratório audiovisual do CRIA – Centro em Rede de Investigação em Antropologia
O programa Novas Oportunidades foi um programa de educação com uma vertente baseada no reconhecimento e certificação escolar das aprendizagens realizadas fora da escola. Nestas sessões homens e mulheres pensam e discursam sobre a sua trajectória de vida, as condições que determinaram a sua existência e a sua dificuldade em existir. Falam da sua formação, da sua experiência profissional, das suas origens, produzindo uma pluralidade de pontos de vistas sobre a escola, a cidade, o campo, a família, o mundo operário e o universo do emprego. Partindo das histórias de vida dos protagonistas, o filme desloca‐se para uma abordagem ensaística sobre o trabalho no mundo contemporâneo.
YOON | jɒn | é uma palavra em wolof cujo significado pode ser “caminho”, “lei”, “norma”, “religião”, ou simplesmente “viagem”.
Ao longo dos 4000 km que separam os dois lugares a que chama de casa, um routier senegalês embarca, há anos, numa perigosa e solitária viagem.
Considerado pelo jornal Público como o melhor título português a concurso na edição de 2021 do festival Doclisboa onde recebeu o Prémio Lugares de Trabalho Seguros e Saudáveis patrocinado pela Agência Europeia para a Segurança no Trabalho, YOON retrata a viagem circular e recorrente de Mbaye Sow, um routier senegalês, num antigo Peugeot 504. Os dois lugares a que chama casa, Portugal e Senegal, são separados por 4000km. Numa arriscada e solitária viagem para Sul, reveladora de uma complexa rede de relações e de zonas cinzentas, o caminho de Mbaye Sow revela-se repleto de (des)encontros, obstáculos e vários constrangimentos.
Nota dos realizadores
YOON é um roadmovie que retrata a viagem, circular e recorrente, de Mbaye Sow entre Portugal e o Senegal. Na estrada, que Mbaye percorre de dia e de noite, imprevistos e obstáculos vão pautando o ritmo das viagens de constrangimentos, fazendo destas, verdadeiros périplos existenciais.
YOON é um filme de (des)encontros: com as autoridades, com mecânicos, com migrantes, com colegas routiers, com os destinatários das bagagens que transporta, com os potenciais compradores dos carros velhos que conduz, com a família. De forma idiossincrática o personagem apropria-se da estrada como mais do que apenas um meio de subsistência. A estrada é uma fonte de liberdade, aventura, provação, e reconhecimento social. Este é um filme que convida à imersão numa solidão, que é tanto desejada como inevitável, mas que é continuamente interrompida por telefonemas, mensagens áudio, vídeo e texto, trocadas com clientes e destinatários das bagagens, familiares e amigos. YOON é ainda um filme que procura refletir sobre a questão das fronteiras, dos fluxos de bens, ideias e pessoas entre a Europa e África. Nos interstícios das urbanidades periféricas das grandes cidades, encontramos a obsolescência material. Porém, através de routiers como o personagem principal de YOON, somos confrontados com as vicissitudes da produção e destruição material que tem lugar entre nós.
(1984) Antropólogo, arquiteto e cineasta, é atualmente investigador no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS- ULisboa). Os seus interesses de pesquisa gravitam à volta da questão das fronteiras, migrações, mobilidade, deslocamento forçado, violência e extrativismo, sobretudo no contexto africano (Zâmbia, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau). O seu trabalho de investigação conta com publicações em revistas internacionais de referência, e a sua obra audiovisual tem sido apresentada em vários festivais de cinema e eventos científicos.
(1980) Foi pela primeira vez ao Senegal em 2007 e tem, desde então, desenvolvido a sua relação com este país através de diversos trabalhos académicos e documentais e, sobretudo, de uma longa etnografia. Tem formação em Antropologia e é doutorado em Estudos Africanos. Atualmente, é investigador do CEI-Iscte, enquanto que o seu trabalho académico se dedica às questões de violência de género, direitos sexuais e reprodutivos e aos conflitos geracionais e valores sociais, em particular nos contextos da África Ocidental. Dedica-se, desde 2005, à fotografia e, em 2009, realizou Walo Walo, rodado em torno do Lac de Guiers, na região do Norte do Senegal.
Filmografia
YOON (2021)
Waalo Waalo (2009)
Ficha Técnica
Pedro Figueiredo Neto e Ricardo Falcão, 2021, Portugal,
documentário, 84 min. HD · Cor · 2.39:1
Com Mbaye Sow Realizadores Pedro Figueiredo Neto & Ricardo Falcão Imagem Pedro Figueiredo Neto Som Ricardo Falcão Edição de Imagem Francisco Moreira Supervisor de Edição de Som & Misturas Roland Vajs MúsicaOriginal Mattia Bonafini & Filipe Palha Produtoras Joana Ferreira & Isabel Machado Produção Sopro Filmes Distribuição Zero em Comportamento
Fernanda Pessoa, Documentário, Brasil, 2019, 76 min.
“Fui estudante de intercâmbio na cidade mais conservadora dos Estados Unidos: Mesa, Arizona.
O documentário mostra o meu regresso, 15 anos após minha estadia, e após o 11 de setembro. Numa tentativa de entender o que significa ser a cidade mais conservadora dos EUA, revisito pais, amigos e professores que fizeram parte da minha experiência anterior, passando pela proximidade da fronteira do México, o mito do Oeste, a Segunda Emenda, as eleições de 2016 (que elegeram Trump), etc.”
Fernanda Pessoa